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segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Caboclos Bugres na Umbanda.

       Caboclos Bugres
       Por Norberto Peixoto.
      
     A literatura que fala dos Caboclos Bugres na Umbanda é escassa, creio que quase inexiste. Fui pesquisar a respeito.  Originalmente este termo "Bugre" foi uma denominação dada pelos colonizadores portugueses aos índios não "catequizados", ou seja, aos silvícolas mais aguerridos, muitas vezes fugitivos  perseguidos pelos capitães do mato, que se recusavam peremptoriamente a se submeterem a uma "conversão" religiosa imposta. Em verdade foi um "apelido" pejorativo, adaptado para a língua portuguesa da palavra francesa bougre. Afinal, a França estava na "moda" na época, pois era o berço do sistema etnocêntrico europeu que se impunha ao mundo. Originalmente esta palavra significava herege.

    O termo capitão do mato passou a incluir aqueles que, moradores da cidade ou dos interiores das províncias, capturavam fugitivos para depois entrega-los aos seus senhores mediante prêmio.  Há que se falar um pouco sobre estes capitães do mato, que gozavam de pouquíssimo prestígio social, seja entre os cativos escravos que tinham neles os seus inimigos naturais, seja na sociedade escravocrata, que os considerava inferiores até aos rasos praças de polícia, e os suspeitava de sequestrar escravos apanhados ao acaso, esperando vê-los declarados em fuga para depois devolvê-los contra recompensa. Os mais sangrentos e assassinos capitães do mato foram alguns “alforriados”, que tinham a benesse dos senhores dos engenhos de cana e cafezais por escravos trazidos vivos ou mortos – geralmente eram capturados e assassinados para servirem de exemplo aos demais, desanimando-os de tentativas de fuga.

     
     Então, os índios, ditos popularmente como Caboclos Bugres, eram os mais difíceis de serem capturados e obtiveram a fama de serem mais esquivos e aguerridos do que as próprias onças brasileiras, matando muitos capitães do mato que por sua vez acabaram desistindo de os perseguirem, o que fez o ciclo escravocrata se concentrar nos africanos, mais “dóceis” e fáceis de adaptarem-se às propriedades agrícolas, por não serem nômades extrativistas como os índios.

    
      A minha experiência com os Caboclos Bugres é que estas entidades ou linha de trabalho são espíritos sim, aguerridos, mas não no sentido pejorativo. São os Capangueiros de Jurema, os que fazem a "tocaia" e prendem os inimigos nas demandas astrais. Aproximam-se de OGUM como guerreiros, mas são originalmente enfeixados na vibração de Oxossi. Em minhas vivências mediúnicas, são coordenados pelo Caboclo da Pantera e mostram-se a clarividência caracterizados de felinos, com peles de onças e panteras do mato cobrindo-os e as faces pintadas como se fossem "gatos". São exímios nas tocaias, esperam pacientemente e quando atacam o fazem com precisão de um esmerado arqueiro, utilizando-se de dardos soníferos que são assoprados em espécie de “rifles” de bambu (falta-me nomenclatura mais adequada), assim “neutralizando” certeiramente os inimigos.

     Saravá fraterno,
     Norberto Peixoto.

NOTA: Bugre é uma denominação dada a indígenas de diversos grupos do Brasil por serem considerados não cristãos pelos europeus. A origem da palavra, no português brasileiro, vem do francês bougre, que, de acordo com o Dicionário Houaiss, possui o primeiro registro no ano de 1172, significando "herético", que, por sua vez, vem do latim medieval (século VI) bulgárus. Como membros da Igreja Ortodoxa Grega, os búlgaros foram considerados heréticos pelos católicos inquisitoriais. Desta forma, o vocábulo passou a ser aplicado, também, para denotar o indígena, no sentido de "inculto", "selvático", "estrangeiro", "pagão", e "não cristão" - uma noção de forte valor pejorativo.
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